quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Toda vez que entro em contato com os escritos de Bakhtin sobre a poesia (são raros), eu fico um tanto quanto atordoada. Como um filósofo da linguagem que a coloca como essencialmente social pode considerar o discurso poético algo próximo a uma autoridade suprema da palavra? Pode haver um sujeito - o poeta - todo poderoso assim??? Seguem abaixo algumas citações do autor... ainda não sei o que pensar... por favor, poetas e blogueiros de plantão, me ajudem a devanear... o que pensam disso?

"Nos gêneros poéticos (em sentido estrito) a dialogização natural do discurso não é utilizada literariamente, o discurso satisfaz a si mesmo e não admite enunciações de outrem fora de seus limites. O estilo poético e convencionalmente privado de qualquer interação com o discurso alheio, de qualquer 'olhar' para o discurso alheio" (Bakhtin, em Questões de literatura e de estética)

"Na poesia o discurso sobre a dúvida deve ser um discurso indubitável." (Bakhtin, em Questões de literatura e de estética)

Pensem comigo...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Este poeminha foi inspirado por um post da Ester, como não tem título, coloco o link aqui!
http://esteranca.blogspot.com/search?updated-max=2009-02-05T13%3A40%3A00-02%3A00&max-results=8
Obs.: O poema da Ester é maravilhoso, o meu não está tocando os "pés"...

Ando pelas vidraças
passo pelo teu chão
entro pelas frestas
me esgueiro pelas estrelas
me nutro dos teus poemas
e
em frases curtas
pontuações imprecisas
fragmentos
imprimo minhas descontinuidades

Bom, este é um meme que me foi passado por http://zisco-zisco.blogspot.com/

Pela primeira vez, serei sincera e escreverei sobre mim mesma, ok? Não escreverei poesia... Seguem as regras e, após, as minhas respostas:



1. Link a pessoa que te “pegou”.

2. Poste as regras em seu blog.

3. Escreva 6 coisas aleatórias sobre você.

4. Pegue mais 6 pessoas e coloque os links no final do post.

5. Deixe a pessoa saber que você o pegou, deixando um comentário no blog dela.

6. Deixe os “pegos” saberem quando você publicar seu post.

Então tá... pela primeira vez, falo sobre mim!



1. Sou uma pessoa contraditória (ah, que grande novidade!!!!), ao mesmo tempo em que sou avessa, em poesia, a academicismos, adoro pesquisar, tenho paixão por estudar, principalmente coisas que remetem ao social... minha poesia é bem diferente da minha escrita acadêmica, mas, nas duas áreas, ainda não consegui encontrar uma voz que seja só minha... estou em busca...


2. Com os amigos, procuro ser o mais justa possível, mas, com o tempo, aprendi a dizer as verdades, coisas que me incomodam ou coisas que podem os fazer sofrer... ficou melhor assim, acho que me entreguei mais a eles. No entanto, tenho tido pouco tempo para eles e isso me dói... mas em março, meus queridos, serei toda ouvidos!!!


3. Com a família, sou muito próxima, gosto de estar sempre junto, eu e meus irmãos procuramos fazer tudo juntos, não brigamos, nos divertimos, somos muito felizes... Meus pais e meus irmãos são meu chão, lamento muito por estarmos distante fisicamente... mas os momentos difíceis por que passamos recentemente nos fizeram mais fortes e mais próximos...


4. Com os amores, bom, com os amores... isso é difícil falar... sou muito orgulhosa e isso torna qualquer relação difícil... tenho pânico de virar uma mulher dependente e isso causa dificuldades em me entregar... amei poucos na vida e, na maioria das vezes, não deixei eles saberem disso... tive uma relação longa que terminou em 2007... só depois que terminamos é que comecei a entender que devia me entregar mais... mas era tarde! ensinamento para as próximas relações!!! Por enquanto, estou em um tempo que é só meu, ninguém entra no meu mundo, vivi períodos difíceis em 2008 e preciso aprender algumas coisas até começar uma nova relação de verdade... mas ainda não consigo pedir perdão... enquanto isso...


5. Nos estudos, sou um tanto relapsa... deixo as coisas para a última hora... agora mesmo, era para estar escrevendo um artigo sobre o estatuto da profissão de poeta hoje e, no entanto, estou aqui, poetando... admiro muitas pessoas na academia... minha orientadora, Aracy Ernst, é uma delas... mas sei que há um certo ranço por essas universidades do mundo... e às vezes as pessoas não são muito leais... já vi cada coisa... mas... acho que em qualquer ambiente de trabalho é assim... então, vamos em frente!!!!!


6. A última!!!!! O que seria???? Bom, várias coisas ao mesmo tempo, todas rapidinhas! Dou bom-dia para as pessoas que não conheço na rua. Canto no chuveiro. Escrevo poemas em qualquer lugar. Guardo segredos. Tenho os meus segredos. Adoro tempestades. Não consigo fingir que gosto de uma pessoa. Gosto de pessoas que sei que não gostam de mim. Tem pessoas que não gostam de mim e eu não faço idéia do motivo. Choro fácil. Me emociono até no Jornal Nacional (os créditos dessa frase são da minha irmã!). Sou de esquerda, mas no momento não me encaixo em nenhum partido. Às vezes sou PT, às vezes sou PSOL e outras vezes, muito poucas, sou PCdoB. Não agüento pessoa mal-humorada. Tomo banho de chuva. Não gosto de ordens. Dou bons conselhos. Sou meio psicanalista dos meus amigos. Etc, etc...


Ufa! Falei demais! Acho que estava precisando disso!!!! Confessar-me publicamente!!! Obrigada, Zisco, pela oportunidade!


Indico aos blogs:







terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

quero fazer o movimento inverso
admitir que
te amo por maldade

quero reter dessas lições
o verso admitir que o
movimento basta

deixá-lo solto
nesse relento com pouco
caso

mas não
perdê-lo se basta
lê-lo
e à doce tara

Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos )
GRAMAS

O coração tem pouca ironia de tardinha
Segredos carnais à flor da pele
poemas descarnados aguardando

A vida recusa transportar-se para outeiros
buracos cavados por doninhas
ervas que florescem

O coração tem pouquíssimo fôlego na piscina
Nos quintais dispara úmido
Na sala fechada cuida das buzinas

A vida se encarrega das janelas
mas acaba descendo em correria
Não cabe Não suporta Não tem peso

Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


O sentimento à flor do papel
Fornece dor aos olhos de quem escreve
A quem lê, fornece colírio.
O alívio absoluto de quem descobre
Que não é o único
E de quem interpreta
Segundo sua vida
E sua morte.
Que não se envergonhe o poeta
Por se mostrar.
Porque se mostrando,
Evidencia o outro
E é visto com bons olhos
Olhos de observador astuto
De si mesmo
Se exteriorizando
Para interiorizar melhor.
Que cada vez sejam mais sinceros os poetas
Que poetas serão estes!
Grandes. Brilhantes!
Altruístas!
Eternizados...
Um poema antigo, que fiz para minha amiga Franciele Guarienti
Toda vez que venho
tenho uma sensação estranha
que se entranha
que mora.
uma sensação que não sabe se dizer
se ri
melancolia
uma sensação de estar em um
lugar aleatório
sem ser por acaso
uma sensação.
O abajur não descansa
e faz danças no teto
sem que eu possa dormir.

Toda vez que venho
tenho a sensação de que
é inútil dormir
sensação que mora
quimera
sem pontuação alguma
o abajur insiste em
fazer danças em mim
e me fazer dançar
toda sensação melancolia
tenho vontade de estar aqui só
quando estou.

Toda vez que venho - aqui -
mora sensação
melancolia
abajur
desabandono -
o sono -
dançar no teto de um
lugar aleatório
uma sensação pontual.
Não moro mais na
quimera -
ESTOU AQUI

Janaina Brum

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Esta impressão foi um comentário no blog do meu amigo virtual, o poeta Zisco, http://zisco-zisco.blogspot.com , na postagem "Olhos de ver"

Te vejo com olhos de poesia
maresia
mar eterno
te vejo e te olho
sem saber o teu rosto
sem saber a tua história
sabendo, no entanto,
os olhos da tua alma.
Um retalho de verdade
um sorriso na simplicidade
de um sorriso
de um amigo
de um poema

esse click foi para o blog tecerpalavras.blogspot.com, na postagem "Coisa de amigo"
Ando passeando por alguns blogs e alguns deles andam me inspirando! Sob o marcador "clicks", publicarei impressões minhas de poemas alheios! Este foi para a publicação "Fundo falso", do blog http://limitedapalavra.blogspot.com

Universo urbano
desencano
desarmo

desfaço
devasso?
cansado?
cante!
que eu canto
de outro lado!

Jana

sábado, 21 de fevereiro de 2009

digo redigo refaço
recorto paisagens do dia
abraço

porta castigo cansaço
dedico poemas de um guia
compasso

digo desdigo desfaço
arcos da minha alegria
devasso

antes distante
te amo
te olho
te curvas
faço rimas
o amor
diminui
telegráfico

te digo
refaço
cansaço
na folha

te olho
me cego
me curvo
te amo

te rimo
me olho
te cego
me amas
e o poema me cria
tua

Janaina Brum
opõem-se à luz sensível que me esquece
objetos cabendo em meus espantos
além da rima descem águas sem começo
sangue de luar obscuro
horas abstraídas no silêncio

há paisagens que não sei de onde
rubros pensamentos de paisagens
subterraneamente
a lua foge branca
pela distância do tempo
naufragando no tempo avesso da noite

Ana Cristina Cesar (Antigos e Soltos)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


Talvez naquele dia
eu tivesse ficado com os olhos
marejados
mas saio daqui
altiva
dona de mim
e cheia de princípios
quando não esperares
mais
eu voltarei a consolar
mas nossas músicas
não me tocam mais
não sei me emocionar
mas eu volto
prática e risonha
sem palavras e sem
sonhos
as cartas estão
no fundo da gaveta
misturadas a contas
pagas e papéis
sem importância
mas eu volto
sem meias palavras
sem pesadelos
magia não existe
amor (existe?) amor
talvez seja mais fácil assim...
Espero ansiosa a carona da próxima tempestade.

Janaina Brum

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


Gente, dou a conhecer a vocês, com muito orgulho, um poema de Teresinha dos Santos Brandão, minha amiga, meu exemplo, minha mestre. Deliciem-se!

Um hino à liberdade


Bendigo a hora em que
de tuas mãos
alcei asas e voei.
Alcancei céus.
Não tive medos;
sonhei.
Bendigo a hora em que
de tuas garras eu fugi.
Corri mundos.
Não tive medo;
sorri.
Bendigo a hora em que
de teus braços me desfiz.
Subi montanhas.
Não tive medos;
traí.
Bendigo a hora em que
de teus lábios meus ouvidos
recusaram teus gemidos!
Sussuraste ao meu ouvido...
O que dizer?
Clausura,
alma dura,
impura.
Traíste a ti mesmo.
Mentiste a ti próprio:

a liberdade não está no céu,
mas no escorrer de tuas mãos...

Teresinha Brandão


“É pensando nos homens que perdôo aos tigres as garras que dilaceram”
(Florbela Espanca)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Para comemorar o fim do nosso romance botamos Abbey Road na
vitrola e dançamos até que o sol vingasse.
“A viagem torna-se não apenas recomendável mas urgentíssima”.

As palavras têm cabelos enroscados. As palavras
tem princesas e bastardos. As palavras tem cera e
visgo. As palavras bocas e ouvidos. As bocas das
palavras tem hálitos bravios. As palavras
navegam. As velas pandas nas noites verticais.
As sereias a descoberto.


Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos)
navegação da palavra

encavalgam-se os versos
aflitos animalescos dentes cerrados um certo ódio nas
paredes da poesia
portões de ferro
a segurar-me a manga
mas acima de tudo
amo as bestas e as feras
nos seus refúgios ou
soltas nas trevas
as patas calcinadas pelo furor
da página


Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos)
33ª poética

Estou farto da materialidade embrulhada do signo
da metalinguagem narcísica dos poetas
do texto de espelho em punho revirando os óculos
modernos

estou farta dessa falta enxuta
dessa ausência de objetos rotundos e contundentes
do conluio entre cifras e cifrantes
da feminil hora quieta da palavra
da lista (política raquítica sifilítica) de super-signos cabais: “duro
ofício”, “espaço em branco”, “vocábulo delirante”, “traço infinito”


quero antes
a página atravancada de abajures
o zoológico inteiro caindo pelas tabelas
a sedução os maxilares
o plágio atroz
ratas devorando ninhadas úmidas
multidões mostrando as dentinas
multidões desejantes
diluvianas
bandos ilícitos fartos excessivos pesados e bastardos
a pecar
e por cima

os cortinados de pudor
vedando tudo
com goma
de mascar.


Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos)
Por enquanto

Quando
então
sentado na cama de casal
lembro que nela te perdes
de beijos
estou sem ar
no ar mexo as mãos
olhos
força nos ombros no nariz;
a garganta solapa; via
estreita,
nossa conversa amena;
nossa amizade;
até o previsto e casto
adeus;
o tempo se poupa;
nos economiza;
e teu ouvido
mouco;
e o troco;
e enquanto isso,
fora,
o real constrói o poema,
imbatível.


Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos)
NADA, ESTA ESPUMA
Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.


Ana Cristina Cesar (In: A Teus Pés)
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas


Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos)
surpreenda-me amigo oculto
diga-me que a literatura
diga-me que teu olhar
tão terno
diga-me que neste burburinho
me desejas mais que outro
diga-me uma palavra única.


Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos)
discurso fluente como ato de amor
incompatível com a tirania
do segredo

como visitar o túmulo da pessoa
amada

a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão que não pode
ser nomeada (como numa carta fluente e “objetiva”).

a chave, a origem da literatura
o “inconfessável” toma forma, deseja tomar forma, vira forma

mas acontece que este é também o meu sintoma, “não conseguir falar” =
não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não-ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para não
Ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para mim
o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu (discurso)
este resíduo.

Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe ( = ritmo).


Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos)
ULYSSES

E ele e os outros me vêem.
Quem escolheu este rosto para mim?

Empate outra vez. Ele teme o pontiagudo
estilete da minha arte tanto quanto
eu temo o dele.

Segredos cansados de sua tirania
tiranos que desejam ser destronados

Segredos, silenciosos, de pedra,
sentados nos palácios escuros
de nossos dois corações:
segredos cansados de sua tirania:
tiranos que desejam ser destronados.

o mesmo quarto e a mesma hora

toca um tango
uma formiga na pele
da barriga
rápida e ruiva,

Uma sentinela: ilha de terrível sede.

Conchas humanas.

Estas areias pesadas são linguagem.

Qual a palavra que
todos os homens sabem?


Ana Cristina Cesar (Inéditos e Dispersos)
na superfície

foram descobertos
hoje
às cinco e meia da tarde
peixes
capazes de cantar

capaz o poeta
diz
o que quer
e o que não quer
e chama os nomes pelas coisas
capazes
de cantar
danos causados por olhinhos suados e marés

os olhinhos do poeta
piscam como anzóis
exaustos
na piscina


Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos, coletânea organizada por Armando Freitas Filho)
Eu penso
a face fraca do poema/ a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
a dor visível do poema/ a luz prévia
dividida
Mas calo a superfície negra
Pânico iminente do nada

Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos, coletânea organizada por Armando Freitas Filho)
Como rasurar a paisagem

a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta

Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos, coletânea organizada por Armando Freitas Filho)
Localizaste o tempo e o espaço no discurso
que não se gatografa impunemente.
É ilusório pensar que restam dúvidas
e repetir o pedido imediato.
O nome morto vira lápide,
falsa impressão de eternidade.
Nem mesmo o cio exterior escapa
à presa discursiva que não sabe.
Nem mesmo o gosto frio de cerveja no teu corpo
se localiza solto na grafia.
Por mais que se gastem sete vidas
a pressa do discurso recomeça a recontá-las
fixamente, sem denúncia
gatográfica que a salte e cale.


Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos, coletânea organizada por Armando Freitas Filho)
ESTOU ATRÁS

do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra


Ana Cristina Cesar (In: Inéditos e Dispersos, coletânea organizada por Armando Freitas Filho)
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:


Ana Cristina Cesar (IN: Inéditos e dispersos, coletânea organizada por Armando Freitas FIlho)
ENCONTRO DE ASSOMBRAR NA CATEDRAL

Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que
não é mudez.
E não toma medo desta alta compadecida
passional, desra crueldade intensa de santa que te
toma as duas mãos.

Ana Cristina Cesar (In: A Teus Pés)
ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?

Ana Cristina Cesar (In: A Teus Pés)
MOCIDADE INDEPENDENTE

Pela primeira vez infringi a regra de outro e voie
pra cima sem medir mais as conseqüências. Por
que recusamos ser proféticas? E que dialeto é
esse para a pequena audiência de serão? Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos
ares, sem nenhuma graça atravessando o Estado de
São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é
agora: nesta contramão.

Ana Cristina Cesar (In: A Teus Pés)
fragmento 2

curta efusão de palavras
aventura tímida de registrar a fenda
desistir da fluência
de todos os truques
da cruta castidade que me aflige
(me reconheciam em versos naquele tempo)
porque talvez qualquer coisa tua me lembre
a mão que era difícil percorrer
naquele tempo
preservar
as mesmas formas da pureza recusada -
nela reside a dúvida
a pele que refaço

Ana Cristina Cesar (in: Antigos e Soltos)
lá onde o silêncio é relva
de lá corrói-se hoje o texto
corrói-se porque hoje o agarra
o pré-texto que nunca se alheia
e o antecede em silêncio
lá onde os signos me esquecem
separados pré-texto e soneto
esqueço que os tenho alheios
à pressa de separá-los
esqueço que lábios e signos
sem pressa se fazem relva
e inscrevo desconhecido
o último verso desgarrado:

Ana Cristina Cesar (in: Antigos e soltos)
O coração tem pouca ironia de tardinha
Segredos carnais À flor da pele
poemas descarnados aguardando

A vida recusa transportar-se para outeiros
buracos cavados por doninhas
ervas que florescem

O coração tem pouquíssimo fôlego na piscina
Nos quintais dispara úmido
Nas salas fechadas cuida das buzinas

A vida se encarrega das janelas
mas acaba descendo em correria
Não cabe Não suporta Não tem peso

Ana Cristina Cesar (In: Antigos e Soltos, coletânea organizada por Viviana Bosi, 2008)

Novos funcionamentos no blog

Queridos amigos,
até hoje aqui no blog, só tenho publicado textos meus. A partir de hoje, passarei a publicar alguns textos alheios, de poetas que admiro, de amigos que me mandarem seus textos, etc.
Os poemas alheios que se seguirão nas próximas semanas, serão de Ana Cristina Cesar. Devo justificar minha escolha: minhas pesquisas acadêmicas giram, há três anos em torno da obra dessa importante poeta brasileira... no entanto, seus textos são raros na internet, encontramos um ou dois quando buscamos no google. Divirtam-se com a leitura de Ana C.!
Quem quiser ter seus textos (somente poesia) publicados no "Entre a loucura e a arte", por favor, enviar e-mail para
janabrum85@yahoo.com.br
Um grande abraço a todos!
Jana

Fragmentos de um discurso amoroso

X

"Estou perdido para sempre"
desesperadamente.
Da falta que me fazes,
o abismo, dor.
Do abismo que me trazes,
horror, a falta.
Na dor do ultrage,
dor, abismo.
Falta.
Falta em mim.
Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso

IX

Pensar em ti é esquecer-te
no mesmo instante.
Não sei me demorar.
escrita ininterrupta
que te fragmenta
e descuntinua
"Nada tenho para te dizer,
a não ser que esse nada
é para você que eu digo"
Meu amor


Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso

VIII

Penso em ti
e logo estranha
como numa carta fluente
se entranha
eu te desejo em meu desejo
e tu o inviabilizas
tornado verdade
escreves
exatamente aquilo
que eu não digo
pontinho de decomposição
no nariz

Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso
VII
"Cheia de vontade de codificar o desejo"
Não te entregarei,
esta carta se destina
ao fundo da gaveta
ou talvez ao fogo
que não deixa vestígios
e me queima também.
Não é para ti,
não corresponde,
não comunica,
excede.




Fragmentos de um discurso amoroso




VI



O limite é este:
não consigo dizer o meu desejo
e se te tomo as duas mãos
- signo da falta,
da minha -,
sabes que é exatamente como ele
que me sinto?
Quero te tocar pelo ciúme
e não vês nenhum sintoma.
Te abandono no ar.
Fragmentos?
Discurso amoroso.


Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso


V


Tantas fiz e agora estou
rendida.
Cartas de amor que rasguei
e agora lamento.
Chamada noturna...
Depois da meia-noite,
só há o meu suspiro,
nada externo,
mas quero tudo...
Escapa...


Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso


IV


Quem construiu esse verso para mim?
Se traio o enamorado é exatamente
no limite
em que encontro a enamorada
dele
(te levo na catedral,
faço uma oração bem cristã -
o que quiseres,
não posso deixar escapar
isto que sinto
e que é só meu.
Neste extremo).


Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso


III


Não adiantam aspas,
é dele o meu discurso,
sucumbo ao seu tom,
à sua voz
impressa na página
envelhecida.
Ele - o teórico, o lírico, o enamorado -
me dá uma sensação de eternidade:
te pego em dez minutos,
Vamos, meu amor,
é hoje ou nunca.


Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso




II




"Em que canto do corpo adverso
devo ler minha verdade?"

Não sei o que me deu a ti.
Só sei que um único momento
- eterno -
me move:
o adorável de meu desejo.
Infiel por um momento
imperceptível,
me vejo no seio de outro a
acalentar a tua ausência.
Se não fosse assim,
morreria pelo excesso.
Te amo pelo avesso
e digo boas palavras.
E digo.
É esse o meu sintoma.


Janaina Brum d'après Roland Barthes

Fragmentos de um discurso amoroso
I
Falas-me de Barthes e eu
Sucumbo
Assim como se abisma
O enamorado
Se te quero, não representas
Nada além do
Signo do meu
Desejo
Especificidade minha
Só quando te realizo
"Te amo porque te amo"
E não é esse o limite?
Não quero perder nada
Mas te deixei esperando
Amei e amarei
Infindavelmente
A outros seres
Mas nada há que me tire
De ti
A especialidade do meu desejo
A minha linguagem é uma pele.



Janaina Brum d'après Roland Barthes

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Poema-tentativa
Poema-álibi
Poema-descrição
Poema-discrição
Poema sujo que joga
Comigo
Que joga contigo
Que brinca com ele
Que briga com ela
Poema constitutivo de todo ser
Que guia a procura
De uma linguagem
Única
Com perfeita imperfeição
Com jogos de palavras, chistes,
Asas e sexos confundidos
Poema-gesto
Poema-folha
Poema-poça
Poema-junco
Poema

O sol por um olho que se descola da retina
O nome pela coisa que não corresponde a ele
O fio pela faca que o corta
O jogo pelo blefe que o engendra
A lucidez pela loucura constitutiva
O pai pelo par que se desdobra
O não-dizer pelo poema que o recorta
Azul
Pelo mar que lhe dá consistência
O eu pelo que não deixa falar
Entranha