quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Toda vez que entro em contato com os escritos de Bakhtin sobre a poesia (são raros), eu fico um tanto quanto atordoada. Como um filósofo da linguagem que a coloca como essencialmente social pode considerar o discurso poético algo próximo a uma autoridade suprema da palavra? Pode haver um sujeito - o poeta - todo poderoso assim??? Seguem abaixo algumas citações do autor... ainda não sei o que pensar... por favor, poetas e blogueiros de plantão, me ajudem a devanear... o que pensam disso?

"Nos gêneros poéticos (em sentido estrito) a dialogização natural do discurso não é utilizada literariamente, o discurso satisfaz a si mesmo e não admite enunciações de outrem fora de seus limites. O estilo poético e convencionalmente privado de qualquer interação com o discurso alheio, de qualquer 'olhar' para o discurso alheio" (Bakhtin, em Questões de literatura e de estética)

"Na poesia o discurso sobre a dúvida deve ser um discurso indubitável." (Bakhtin, em Questões de literatura e de estética)

Pensem comigo...

18 comentários:

Anne M. Moor disse...

O que é um 'discurso indubitável'? Como assim: incontestável???? Então só uma leitura - isso não parece Bakhtin...

teresinha brandão disse...

Pois é, Janinha! Estou adorando ler tua tese, só me surpreende este "outro" Bakhtin, que, aliás, não conhecia.
Mas ver Bakhtin sob outro ângulo está sendo muito bom! Apenas não vejo como te ajudar ...
Sabes o que houve, minha linda? A criatura superou o criador ...!
Estás dando de dez a zero em mim quanto ao que "eu supunha" conhecer do Bakhtin!
Mas essas "contradições (ou aparentes contradições)" são comuns nas teorias acadêmicas, não?
A AD, por exemplo, utiliza uma noção de ideologia (Althusser) de que os próprios analistas do discursos, em muitos pontos, discordam.
Para mim, o que apontas na tua dissertação está sendo novo ...
Deixa emergir o novo! Não te assustes com isso embora o novo sempre assuste um pouco, eh, eh!
Milhões de bjs, minha querida!
Um conselho: não tentes entender "de um só fôlego" o que é polêmico, passível de discussão, enigmático.
Sempre temos muito a aprender. És humilde e mestra em aprender. E nos ensinar!
Com carinho, Tê!

teresinha brandão disse...

Interessante, Jana, mas a citação sobre o discurso alheio neste post parece ir totalmente contra o que ele expôes em "O discurso de outrem", em Marxismo e Filosofia da Linguagem, mas é porque se trata, acho, de um "outro" Bakhtin.
Quando se trata de poesia, acredito, Bakhtin parece "outrar-se" no sentido "pessoano" (Fernando Pessoa)! "Transfoma-se" completamente, a tal ponto de não ser identificado como "o" Bakhtin!
Mas pontos conflitantes ou obscuros, na Academia, devem emergir, e não ser escondidos!
Bjs, amigona!Fica tranquila!
Tê!

Janaina Brum disse...

Pois é, meninas!! Parece mesmo um outro Bakhtin...
Na verdade, o que ele diz nesse capítulo sobre a diferença entre a poesia e a prosa é que, na poesia, há uma deliberada monologização da palavra. O poeta vive na sociedade, no plurilingüismo, mas quando escreve poemas, as palavras são despidas de seus acentos valorativos naturais. Ele diz também que a poesia é naturalmente social, dialógica, mas o modo como o poeta toma conta da palavra a faz monológica. É, me parece, uma questão composicional...

Mas isso ainda me surpreende, ainda não engulo essa história direitinho... Me decepcionei um pouco até com o Bakhtin...

Anne, esse 'discurso indubitável' se refere à palavra na 'sua essência', digamos assim, é uma questão de como o sujeito apreende e trabalha com a palavra na poesia em sentido restrito, como diz Bakhtin... mas também não me parece uma coisa que ele pudesse dizer...


Tê, isso não é novo, não... O Cristovão Tezza fez a tese de doutorado dele sobre a poesia em Bakhtin (entre a prosa e a poesia? Bakhtin e o formalismo russo)!! Não tem nada de inédito, não, na minha dissertação...

Ótimas contribuições, como sempre!!! Obrigada, meninas... Bjs

Anne M. Moor disse...

Obrigada pelas meninas :-)

Francisco Antônio Vidal disse...

Me senti aludido como blogueiro de plantão.
Primeira vez que sei de Bakhtin, mas o que estou lendo me parece correto e até genial. O cara integra marxismo, freudismo e muitas outras coisas que na época nem se sonhavam relacionar.
Quem pensar como marxista vai gostar e entender algumas facetas de Bakhtin, mas vai se confundir com outras, achar que não é ele, que é outro Bakhtin. Mas ele toma a visão social e a integra com a individual. Precisarás considerar um pouco o ponto de vista da Psicologia individual, pelo menos para ver como as coisas humanas são complexas e o Bakhtin consegue entrar nessa complexidade.
Assim, a criança fala a sua mãe como se não fosse outra, mas uma parte de si mesma. A mãe lhe imporá o discurso de realidade (social), ensinando-lhe a se "outrar", a se diferenciar de outros. Mas seu discurso de criança (a poesia, no adulto) é um falar próprio (individual), que se autoidentifica e que não vê outros, só vê a si mesmo e se alimenta em si mesmo.
O poeta adulto fará isso, como a criança livre e egocêntrica, mas o fará em sociedade, o que outros interpretam como um ato social (não o sendo em si mesmo).
Se Bakhtin diz ou pretende dizer algo assim, dá conta dessa integração de opostos (ego-sociedade), como Freud e outros estudaram a díade mãe-criança.

teresinha brandão disse...

Meu querido Francisco! Que bom saber de ti! E devo confessar que não é à-toa que sou fã de carteirinha!
Até o conceito de interdiscurso em AD expuseste no comentário!
"Outrar-se", na poesia, para Bakhtin, é ser capaz de "autonomia"? Hãm, interessante...
E eu que cheguei a imaginar que o Bakhtin tinha enveredado para o outro lado _ que ele também critica! _ o do "subjetivismo"!
Não seria, então uma "subjetividade" não tão "determinada pelo "social"?
É isso?
Bjs, Francisco! Será que adiantou, Janinha?
Bjs! Tê!

Anne M. Moor disse...

Deixa ver se eu entendi... Quando dizes: "Mas seu discurso de criança (a poesia, no adulto) é um falar próprio (individual), que se autoidentifica e que não vê outros, só vê a si mesmo e se alimenta em si mesmo.", o poeta adulto escreve ou melhor, SE escreve em uma caminhada de SE conhecer. Com isso concordo plenamente. E também o leitor dessa poesia pensa e se alimenta em si mesmo. Toma pra sua vida as palavras e/ou entrelinhas do poeta para se entender...
Adoro isso... Nunca estudei Bakhtin Terezinha, mas adoro poetar... :-)

Beijos

Janaina Brum disse...

Geenteeeee, vcs são maravilhosos! Francisco, acho que os estudiosos de Bakhtin nunca relacionaram isso com a psicologia... acredito que por causar um estranhamento esta afirmação seca de que a poesia seria monológica... a idéia de o poeta adulto fazer em sociedade (ou não) o que a criança faz é genial... já vi em psicanálise algo desse tipo, mas nunca tinha relacionado ao que diz Bakhtin... REalmente, essa tua "descoberta" pode render bons frutos!!!! Me ajudou muito, ainda hoje cedo estive com a Teresinha e discutimos a tua idéia!! Foi genial!! Aliás, a Tê também, como sempre!

Anne, talvez quem escreve poesia veja essas relações com mais clareza... eu, na busca de clareza para a minha produção, encontrei na Ana Crisitina Cesar "um prato cheio" para pensar a produção de sentidos no discurso poético... O Bakhtin me surpreendeu... me decepcionou em um primeiro momento, mas depois de um tempo, comecei a enteder melhor! E hoje, com a sacada genial do Francisco, e com a discussão com a Teresinha, passei a vê-lo com outros olhos!!! Infelizmente não posso mexer mais na dissertação, a defesa é amanhã, no máximo posso argumentar!!

Anne M. Moor disse...

Janaína,
Boa sorte na tua defesa. Como passa o tempo! Parece ontem que andávamos pelos corredores do Letras...

E aprende, que nunca é tarde demais...

Beijo grande

Janaina Brum disse...

Obrigada, Anne! É verdade, o tempo passa! Nunca cansarei (que cacofonia) de aprender, entendo que a minha dissertação é aberta... nada acabado. E acho isso bom, precisamos admitir que não damos conta de tudo... estou recém começando uma jornada, meu trabalho possui falhas, algumas poderiam ter sido sanadas com mais tempo, outras jamais seriam...
Beijo no coração

teresinha brandão disse...

ORAÇÃO DA SERENIDADE


Deus, concedei-me Serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar,
Coragem para modificar aquelas que posso, e Sabedoria para perceber a diferença.

Janinha, querida, desejo-te desde já muita serenidade na defesa da tua dissertação.

Estarei lá emanando muitas energias positivas do fundo do meu coração.
Este é um momento importante em tua vida ...!
Um bj muito carinhoso da "ex-mãe", que ama muito sua filha! Crescer e ter autonomia faz parte de um aprendizado dolorido para quem ensina e para quem aprende.
Ensinaste-me muito. Vai e sê feliz!
Bj, porque já estou quase chorando, Janinha!
.........
Tê!

€ster disse...

Oi Jana,

deixei mais esclarecimentos sobre a Blogagem Coletiva em seu email,

qualquer dúvida entre em contato!

bjks

Philip Rangel disse...

HUmmm muito bom mesmo.....eita mudnaças neee

Márcio Ahimsa disse...

Oi, Janaína.

Bom, querida, eu nada sei muito de discursos poéticos, nem de enunciações sobre o que diz o eu-lírico, pois, não concebo academicamente, seja pautado num discurso poético em que esse "eu" faz-se passar por várias vozes, ou, o caminho inverso, várias vozes externadas calando-se e falando numa única voz. Bom, eu, como rascunho de poeta, deixo-me misturar com todas as minhas vozes que estão em mim e fora de mim.

Ei, obrigado pela visitinha que me fez.

Beijos, querida, ótimo domingo.

Jaquelyne disse...

Amiga, tem um selo pra ti lá no Jaque Sou!

Beijos=**

Flavio Ferrari disse...

Os seres humanos sofrem de "animus classificandi".
Rotulamos e classificamos tudo.
Definimos uma "caixinha" para cada coisa que existe. Criamos critérios para colocar as coisas nas caixinhas.
E, depois, afirmamos categoricamente que tudo aquilo que não encaixa nos critérios não pode ir para a caixinha.
Tem lá a sua utilidade.
Mas daí a conferir autoridade a quem quer que seja para dizer como e o que devemos escrever ou interpretar o que está escrito, vai um looongo caminho que eu, particularmente, não tenho a menor vontade de percorrer.
Assim sendo, sigo escrevendo fora das caixas.

Janaina Brum disse...

Flávio, concordo contigo, a gente quer colocar tudo dentro de caixinhas e foi isso que fez com que eu interpretasse mal o Bakhtin. Agora, com a ajuda dos amigos blogueiros, pude ver que não é tão autoritário seu conceito de poesia como eu estava julgando!
Abçs