segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Aqui

Eu não quero construir nada. Eu não entendo por que me cobras tantos futuros se eu nunca quis estar aqui. Era sempre uma sucessão de fatos prováveis e inadiáveis que me fazia estar contigo. Eu nunca quis te dizer nada. Se te disse palavras contundentes foi por gostar de ver as palavras agindo por si só. Eu não quis te ferir, juro. Quis dizer uma água batendo na janela e ela bater. Quis dizer um amor e ele amar. Isso não é uma justificativa, calma. Mas eu preciso dizer. Acaso não vês agora a diferença entre o querer dizer e o querer mostrar? Não percebes que este choro não é aquele choro vazio do outro dia? Calma, vou explicar o inexplicável.
Eu nunca quis construir. Não quis estar aqui. Não pedi, entendes? Enquanto vibravas, eu queria só fumar um cigarro. Se eu te ouvi dizendo lonjuras foi só por querer te responder adequadamente e te fazer brotar. Eu não era aquela que admiravas. Lembras daquela noite em que me encontraste no meio-fio da calçada com os nervos por um fio? Eu sou aquela. Lembras que me dizias louca e "vai passar, vai passar"? Eu sou exatamente aquela que te dizia barbaridades e ódios e raivas e mágoas. Não, a culpa não é tua: não há culpas. Não tem causa. Eu não tenho porvir.
Compreendes esta história de construção? Eu não quero. Vou ficar aqui. Não penso na profissão, no casamento. Não quero. Deixa-me ficar assim. Construir é sempre construir prisões, entendes? Não posso prever amanhãs e depois-de-amanhãs. Se faço promessas, elas são totalmente ocas. Eu deveria ter te avisado antes. Mas ririas e acharias extremamente poético.
Eu quis te dizer um dia que não construiria uma vida. Não, não é que sejas a pessoa errada. Nem a certa. Isso não existe. Eu quis te dizer. Lembras do dia em que te levei até o cais e te falei sobre a intensidade daquela escuridão? Aquela escuridão não existe mais e eu não pude, não poderia prever. Nunca tive a pretensão de prever. É assim. Um céu escuro era um tudo. Era tudo que poderia existir. Não estou falando de instantes. Não poderia segmentar a vida em instantes. Seria colocar as coisas uma atrás da outraem sucessões. Absolutamente. Não é isso. Não estou falando de viver uma coisa de cada vez, não dou um passo atrás do outro. Entendes que só existe isto: este agora e o passado.
Eu nunca construí. Só existe passado e presente. Observa como este agora é absoluto, embora entrecortado de passados. Não me toques. Não me consoles. Eu não estou louca. Este momento não vai passar. É mais ou menos como me disseste naquela noite do temporal, na tua casa. A noite da explosão. Morrerias, não? É mais ou menos disso que eu estou falando, mas eu não lamento. Eu nunca lamento a falta de futuro. Futuro não existe, entendes? É simples: eu aceito.
Não construí minha vida. Ela é à vontade. Sim, é assim mesmo, não há segredos nisso. Não, isso não é um mistério que eu protejo. Como vou te explicar? Uma vez eu te disse que o inexplicável não mora nas palavras. Ele foge e se esconde atrás delas. E é só por isso que eu sou prolixa. Olha-me nos olhos. Vês que estão vermelhos? Percebes? Sofres tanto quanto eu? Entendes que agora é tudo? Não há amanhãs. Há um breu causticante logo ali. Não podemos prever. Não sejas pretensiosa. O futuro são só palavras. Vazio como a sintaxe.
O futuro é uma construção. E eu não sou afeita às arquiteturas. Se eu não dei atenção aos teus projetos não foi por distração. Todo porvir me desinteressa pela sua natureza de ficção. Só existem passado e presente. Não é que eu não me interesse pela lua nova, é que agora ela é para sempre cheia. Eu sei que precisas ir, mas espera, já que eu não sou capaz de perceber que vais embora. Deixa eu te eternizar agora. Eu não quis te ferir, juro. Não vou embora, eu jamais sairei daqui até que decida sair daqui. Entendes agora? Agora eu jamais vou morrer. Eu nem sei o que é a morte agora. As palavras existem soltas de qualquer coisa. As coisas jogam atrás das palavras. Eu não quis te atingir com a minha eloquência. Eu joguei todas as fichas. O veneno não está nas palavras, mas em quem quer fazer delas as coisas. Não, não é lição de moral. Eu nem tenho, nem sei o que é a moral.
Eu disse amor e amei. Não construí. Mas não rego as plantas, entendes? Não, eu não vou sofrer. As palavras são dos outros. Como posso dizer uma coisa que é só minha? Não sou pública como as palavras, não insistas. Só vou te dar pistas. Entende que eu só te disse mentiras justamente porque só mentiras podem ser ditas. Vês as minhas lágrimas? São reais. Jamais compreenderás esse real.
Real não se constrói. Este é teu erro: tentar construir reais. Eles são aleatórios e fortuitos. Tu constróis enquanto eu fumo e me distraio com os desenhos intactos da fumaça. Quando eu falei em explicar, eu não falei que seria fácil ou rápido. O tempo não é assim uma linha. Eu só te amei quando eu não disse nada. É essa contradição mesmo, não me tomes por incoerente. Eu nunca quis de ti o que podias me dar. Eu era oca. Vai lá. Eu não me importo. PodeS ir. Eu nunca te quis. Eu te jurei mentiras. Eu te joguei num limbo. Pega um avião para o futuro que eu vou ficar aqui no teu passado. Eu não posso ir. Não é minha última chance, não. Eu não pensei que te convenceria, eu não pensei em chorar, eu não previ jamais preveria jamais te verei chorar nunca soube disso eu só quero estar aqui não quis antes lua cheia só ela existe aquele presente é já passado eu não imaginava vai que eu não conheço estações eu nasci aqui é isso que eu sei que eu vou ficar se voltas não importa não existe não consigo ver não sou dada às arquiteturas não futuro não quero EU SOU AQUI

Escrito em 16/06/2010

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Escada afora, noite abaixo,
te chamo de louco, busco algum laço,
todo dia, poesia, me chama de novo,
me puxa do braço,me conta teu oco,
me diz um segredo, me enfrenta – teu medo,
me desvenda: meu medo.
me perco na luz, desconheço meu passo,
te chamo em segredo e te abraço.
do traço, do oco, do medo, do espaço,
te refaço sem palavras – escravas da ordem –
na minha desordem:
puro aço, aço do sentido do teu traço em mim:

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A linguagem treme de desejo - a propósito de "USUFRUTO"

Depois de um tempo sem postar, volto sem poemas, mas falando de coisas "poéticas". Eu, que pensei ser Usufruto uma peça teatral sobre hipocrisia, com uma pitada de feminismo, me surpreendi: é e é muito mais!



Devo adverti-los de que este texto não tem gênero: crítica, resenha, artigo de opinião, talvez todos juntos e mais uma pitada de diário segredoso e íntimo – quase ficcional. Escrevo sobre a peça Usufruto, com texto e atuação de Lúcia Veríssimo, atuação de Cláudio Lins e direção de José Possi Neto. Faço isso pois a peça ecoou em mim. Como não tenho compromisso com a crítica teatral – nem com a crítica de qualquer espécie – permito-me misturar e, principalmente, admitir que misturo todos os gêneros, todas as impressões, sejam elas minhas sobre a peça ou sobre mim a partir da peça.
O espetáculo, que aconteceu em Porto Alegre, no Theatro São Pedro, nos dias 18 e 19 de junho, já tem longa carreira: desde 2009 circula pelas salas de teatro do país. O texto de Lúcia Veríssimo tem um claro objetivo, expor um pensamento muito simples e pouquíssimo aceito: “Caretice é uma doença perigosíssima, o Ministério da Saúde deveria advertir uma merda dessas”. Para além do assunto, que é a hipocrisia, Usufruto é colocado pela sua autora como um tributo a Roland Barthes e, assim,um texto que versa, sob o pretexto da crítica à nossa sociedade, sobre coisas muito profundas.
O que significa dizer que a peça é um tributo a Barthes? Não sei, só sei que, a despeito do interesse pelo tema, foi o que me fez decidir sair de Pelotas e ir até a capital exclusivamente para assistir Usufruto. Não sou grande conhecedora de Barthes, mas o primeiro texto seu que me veio à cabeça foi “O prazer do texto”, talvez pela ligação que fiz de tudo que li e vi sobre a peça e a fruição de que esse autor fala. Obviamente, não podia deixar de lembrar de “Fragmentos de um discurso amoroso”, seu texto, de longe, mais artístico. Bom, voltemos à peça.
Com cenário extremamente simples, como convém (penso eu) a um espetáculo que privilegia o texto, a peça conta a história de uma mulher e um homem – personagens sem nome – que se conhecem no apartamento que ambos pretendem comprar. A fim de resolver quem dos dois ficaria com o apartamento, propõem (ela propõe) um jogo em que cada um deve expor os motivos por que merece ficar com o apartamento.
História simples? Talvez possa, em um primeiro momento, pensar-se isso. Todavia, o texto envereda para um lugar – sim, um lugar – extremamente incômodo para a maioria: o desejo. A personagem de Lúcia Veríssimo desconstrói pouco a pouco a negação – tão naturalizada, para fazer referência a Barthes, ainda que nas Mitologias e não nos livros citados anteriormente – do desejo, consciente ou inconsciente sobre a qual se assenta nossa sociedade. A personagem de Cláudio Lins – representante legítima da nossa sociedade ocidental – é forçada simbolicamente a despir-se de todo o imaginário social em torno do amor e do desejo. O interessante é observar que essa personagem é mais nova do que a de Lúcia e é ela, como mulher de uma época de ganhos enormes contra a hipocrisia, que é o vetor de tudo isso.
Não pretendo aqui narrar toda a história, quem quer conhecê-la que vá ao teatro, mas devo dizer – e é só por isso que escrevo – que a peça tirou-me da minha zona de conforto, bem como eu gosto. Tirou-me da zona de conforto não porque trata de sexo, de moral, hipocrisia, etc., etc. ad infinitum, mas porque trata de linguagem (lembram da minha fixação pela falta da linguagem??). O texto é construído discursivamente em torno de imagens que fazemos de certo e errado, de bom e mal, de politicamente correto e incorreto, sem esquecer que é através da linguagem que se constrói tudo isso: é isso que está em xeque! E mais: está em xeque a construção de um imaginário social perfeito feito através de uma “ferramenta imperfeita”, para usar as palavras de Paul Henry, que é a linguagem. A personagem de Lúcia Veríssimo desconstrói discursivamente todo o imaginário da personagem política e moralmente correta de Cláudio Lins, trazendo à tona o desejo recalcado, o domínio do inconsciente sobre o consciente, por mais que queiramos o contrário.
A sábia incerteza dela quebra todas as falsas certezas dele. Eu, que pensei inicialmente ser a peça ligada ao “Prazer do texto”, não pude tirar da cabeça o “Fragmentos de um discurso amoroso”. Fragmentos milimetricamente ligados por um fio condutor que nos leva a um lugar surpreendente: o amor – não o amor burguês, mas o amor sem adjetivos, o amor que Barthes descreve teórica e poeticamente, o amor que, usando o próprio texto da peça é “feito para sabermos que existe”. Usufruto é definitivamente uma peça sobre o amor, o amor que queremos de um outro que criamos para nós mesmos por esta “ferramenta imperfeita” que falha toda vez que tentamos construir o que não é linguística ou simbolicamente apreensível: “amor perverso e polimorfo” (verdade que nos mostra a impossível satisfação plena do desejo) e não “amor puro e fiel” (ilusão que nos leva à censura), amor que sentimos e que raramente vivemos.
Eu me contradisse? Sim, e a contradição é nossa condição de existência. Eu disse que o Usufruto era um texto sobre linguagem e disse depois que era sobre o amor. Sobre a linguagem sobre o amor, a linguagem do amor e a linguagem no amor (expressões de Eni Orlandi), sobre o simbólico, sobre o imaginário e sobre o real, sobre projeções que só fazemos na linguagem. E isso está muito bem posto na peça: no final, toda a desconstrução do imaginário social personificada na atriz Lúcia Veríssimo se mostra um ato de pura linguagem, de pura discursividade, discursividade essa que aponta para a falha do simbólico e, consequentemente, para o real com o qual nos deparamos por esse furo da própria linguagem. Depois de, pelo viés da desconstrução, convencer a personagem de Cláudio de que suas convicções e imagens morais e sociais eram distorções e negação do desejo ou censura mesmo, a personagem de Lúcia, em um telefonema, desfaz toda a história que contou, sugerindo que sua vida tem sido tão normal (ou normalizada) como a dele. Puro instrumento de convencimento? Não, manifestação do desejo e pela única via que temos para manifestá-lo organizadamente: a linguagem. O que dizemos é concreto, o que dizemos é verdade, mesmo que seja apenas uma verdade em meio a tantas outras: o que dizemos acontece.
É dessa maneira que o texto abre para a multiplicidade de sentidos: quem se identificou com a personagem de Cláudio Lins pode ter saído do teatro aliviado, pensando que toda a desconstrução tinha o objetivo de convencê-lo e que era uma mentira. Quem se identificou com a personagem de Lúcia Veríssimo saiu do teatro confuso e contraditoriamente satisfeito com a possibilidade de várias verdades agindo sobre nós e nos constituindo. Obviamente deve haver quem tenha saído sem entender nada ou chocado.
Pensaram que eu ia falar sobre a cena polêmica  de sexo que há no espetáculo? Não, a cena é linda, com uma iluminação fantástica, mas há bastante gente que fala sobre isso; quem ficar curioso, pode procurar na Internet. Eu, que não tenho obrigação nenhuma de informar ou de criticar (aliás, eu nem entendo de teatro), reservo-me o direito de falar de linguagem, de amor e de desejo: do desejo e do amor da linguagem. Mas não se preocupem, este é só um ponto de vista ou, como eu prefiro pensar, um dos vieses por que se pode olhar para Usufrutro. Encerro meu texto com a citação de Roland Barthes que já usei várias vezes e que não saiu da minha cabeça durante toda a peça e que não sai da minha mente mesmo agora:

A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha palavra treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é ‘eu te desejo’, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação. (BARTHES, Fragmentos de um discurso amoroso, 1989, p. 64)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Poeminha sonante, aliterante e sem sentido

A troca
da toca
de rosas
na roda
que goza
que prosa
que torna
a bruta
da gruta
que volta
que goza
que goza
de rosas
de tocas
de rodas
da rosa
do gozo
do mundo

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O outro: teatro de mim

Basílica
da santidade pretendida
de um ou dois mortais,
eu vi um monte,
era cabral,
eu vi o tempo,
era temporal.
Eu vi um mundo
e era apenas seu avesso.
eu vi
e era um descerrar de cortinas,
um cessar de horas,
um último íntimo
intenso, duro e causticante
em quatro atos,
fragmentos,
descontentes,
nós
milimetricamente
contundidos
esparsos, jogados, dados,
confundidos deliberadamente,
numa sorte dos sentidos.

Eu moro na palavra,
Tu moras na palavra.

Pura encenação do sem sentido.
Pura encenação do sem sentido.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Te liguei
telefone ocupado
ia te contar uns baratos,
ia te falar de Clarice,
novos planos e barbitúricos.
Ias me contar teus novos
projetos?
Nunca mais me falaste
de teus poemas frouxos,
não me farias rir de novo
de novos brilhos
e romances roucos.

Tenho um segredo e
só conto se insistires
(vou cortar o cabelo
e entrar numa onda
metropolitana,
vou te escrever uma carta
e sentir vontade
de poesia no avião)

Escrevi uma canção,
Bethânia vai gravar,
mas disse que vai
pedir um arranjo menos
heavy metal

coração aos pulos
coração aos pulos

não que eu sinta
exatamente a tua falta,
mas quero te contar
milímetro por milímetro
as minhas pretensões

vou comprar uma
secretária eletrônica
de Pepa Marcos
e um telefone vermelho
para esperar
diante do espelho
um telefonema
do outro lado do oceano

vou te contar um fato
desses sem importância:
pura convenção
eu comprei uma lembrança
vou construir uma memória
vou contar histórias:
super produção

chove na minha janela
e do outro lado faz
sol
vim em busca de uma
busca
te mando notícias
me mandas notícias
te mando notícias
me mandas notícias
até eu me acostumar
assim, de relance,
com a secretária muda


   :
      :

chove no centro
de uma noite
sem sentido
na capital
da minha janela
não
só uma superstição
telefone desligado

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Luzes caleidoscópicas
como num filme
anos oitenta.
São setenta filmes
por ano,
são quarenta livros,
são amores noturnos,
são paixões descabidas
como costumam ser as paixões.
Eu não vim para te ver,
Pelotas não tem mais
plátanos nem folhas mortas,
só cigarros e underground,
só cigarros, underground
e uma dose de tequila.
Vou escutar Caetano
e esperar uma canção composta
para mim.
Eu quero cantar e conhecer
o mundo,
embora tenha o mundo inteiro em mim.
Vou conhecer Paris tomando chimarrão.
Voo, mas sempre com os pés no chão.
Quisera pular corda,
mas vou pular de paraquedas,
vou soltar pipa e fechar os olhos.
Não que eu esteja disposta a correr riscos,
mas eles têm uma predileção pelos
desavisados como eu.

Chove uma chuva fininha
na minha alma.
Calma.
Não quero mais.
Vou engolir o mundo,
embora tenha o mundo inteiro em mim
e mais cigarros, underground
e uma dose de tequila.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A tua palavra é equivocada e eu comprendo:
eu vi um avião e estavas dentro.
Eu vi Caetano, Gal e Betânia,
Tive um pesadelo,
acordei no meio do oceano,
gritando teu nome.

Vamos para a Espanha,
vamos no bar da esquina,
que nunca acabe a esperança.
Somos loucos,
mas não estamos sós,
vamos embarcar num transatlântico,
fazendo regressão marítima.
Vamos inventar um novo ritmo,
este que não dança...

Mas todos os tons, cores inimagináveis,
vamos andar cambaleantes,
rindo alto,
tão alto que ninguém escute.
Essa é a nossa contradança.

Te ligo amanhã?
Me pegas agora?
Em boa hora!
Albergue espanhol?
Persona?
Coração disparado,
te conheço do outro lado
da nossa montanha.

A minha palavra é equivocada e tu compreendes:

Para Augusto Radde

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Texto em colaboração com Augusto Radde e Wisrah Moraes.
Dos arquivos de Karina Bernardes

Devaneios de mesa de bar a partir da tentativa de dizer, mas da certeza da falta...

O tom era o de cinza, mas havia uma breve luz amarela que fazia os corpos vibrarem...
Será desejo mesmo? Me contento com o silêncio que grita alto, com a falta que supre qualquer sensação...
Sigo pelo labirinto na dúvida de qual caminho seguir. Mas o tom agora é outro, a sensação é outra...
Não haveria sequer a dúvida sobre o caminho a seguir.
Era uma nuvem em que eu subia: transporte público.
Era uma via e outra via e, eu, era pelas duas.
O fundamento do labirinto nunca foi encontrar a saída: tique-taque, tique-taque, mas foi um dia desejar pelas duas vias, se perdeu...
Não sei das vias em si nem do nosso abandono e de nosso tempo. Porém, sempre, eu digo, não basta progredirmos apenas em nossos sonhos que o dia é mais e nos é menos que o dia pode ser.
Ser em desgosto todos somos e sabemos ser, e crer e viver.
Bastamo-nos e sejamos menos que possamos ser a nós, sérios plagiadores, sentidores das dores em nós, e em que a inventamos, prontamente, o que possamos ser...”

09 de setembro de 2010.

Augusto Radde, Janaina Brum e Wysrah Moraes.

Organização, tal qual, de Kaká Bernardes.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Era um encanto:
era um cântigo,
um argumento,
era meu.

Se hoje lembraste de mim
ao escutar uma canção,
não penses que deixei de lembrar de ti
justo naquela parte em que o disco arranha.
Não era para ser,

conta-me o teu segredo,
que eu mais nada tenho
a dizer,
conta-me coisas banais
e até mesmo fúteis,
eu acho graça.

Ouve, quero te dizer uma coisa,
mas em segredo:
só te vejo de relance,
mas houve um lance que
me deixou tonta:
gostei de ouvi-la cantar,
não sei se é loucura ou impertinência,
mas ainda assim lembrei de ti.

A minha lógica é a lógica
da linguagem e mais nada,
vazia puramente
como a lógica de uma palavra.

Não esperas de mim
um ímpeto?
Não esperas de mim um átomo?
Nada esperas de mim?
Pois saibas que toda noite
eu te dou tudo de mim,
mesmo sem lógica,
quase heróica,
uma pétala,
um plátano,
avassaladora.

Vou esperar telepatia
pelas ruas por onde eu ia
te encontrar.

Sou quase nada
talvez um único nada
o que não exige pontuações
eu existo tudo em mim
na tua imagem

espero uma carta distraída,
um encontro na esquina,
uma mesa de bar
e duas doses de Whisky
e duas pedras de gelo, por favor.
Não mandes recados,
te vejo nas próximas horas,
eu mesma caminhando
e enfrentando tua mão na nuca.
Eu diria nunca,
não vou acordar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E ele escrevia
na velocidade da linha
e era assim que dava
um pouco de si a ela
uma estrela
um barco a vela
um furacão

morrem os instantes
em um segundo
mas a linha fica:
puro pó
no início do início
do século

Para meus amigos Crisântemo (A. Radde) e Margarida (L. Santos)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

E quem disse que o mundo não lembra de Ana C.?

BIENAL - SP
Créditos da foto: Franciele Rodrigues
Guarienti
Eu quero viver na Comunidade do Arco-Íris,
bem longe dos louvores,
bem longe das estradas
e das ruas congestionadas.
Eu quero viver atrás dos montes,
mesmo sem bucolismos, 
não importa.
Eu quero viver longe das calçadas,
das ruas descalças,
dos sonhos inatingíveis.

Eu vou voando em um segundo,
fugir, escapar do tédio absurdo
do mundo,
eu vou.

Não quero lembrar das estradas
e de todas as convenções que isso implica.
Quero estar em vigília,
sem propagandas de refrigerantes,
refrigeradores e condomínios gigantes.

Não vou para Pasárgada,
não quero reis, nem mulheres, nem camas.
Tampouco palmeiras e sabiás e
terras com pronomes possessivos.
Eu quero o impossível, o indizível,
eu quero o que a metáfora não alcança,
vou voltar para antes do estádio do espelho,
colher cogumelos e usar sapatinhos vermelhos.

Não comprei passagens, não espero aviões,
vou assim mesmo, de pés descalços e de pijama
e quando eu sentir saudades, vou cantar uma canção inédita,
vou me lembrar de anedotas
e vou dormir como criança,
ouvindo roques rurais -
eu e os ancestrais.

Não me mande notícias, a ECT não
chega na Comunidade do Arco-Íris,
se vier para ficar venha,
sem pompa e circunstância.
Se tiver receios, paciência!
Mas sonhe comigo,
entre bruxas e sereias,
entre hippies e mágicos, 
sem melancolias de auroras de infâncias,
mas de novo uma criança.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010



porque sou uma instância inferior de céus
e nuvens e trovões,
porque quero os clichês ardendo em mim
antes de serem clichês, chavões e banalidades,
porque vou até o sol e queimo frente a tanto enfrentamento,
porque choro sozinha nas noites e nos dias em que voo sem pouso,
porque sou pouco e sempre desejei o mais,
porque vou sair a procurar porquês,
Eu estou aqui. 
Por que vou até teus pés e volto em um átimo?
Por que sou sempre a última?
Por que levo dois tempos, assim bem computados, para
pensar e transformar os ímpetos em planos?

Volta à casa o antigo dono, faz do chão o seu entorno,
torna a mim o meu intento, vem do céu o sol e o vento,
não sou eu que escrevo cartas e as rasgo dois segundos depois?
Não sou eu aquela que quis roubar dois ou três versos geniais?
Porque percebo essa farsa em cinco atos ancestrais.

Estou ardendo e ninguém vê. Por quê?
Eu vou saindo pelos fundos,
não tenho ganas de paixões, de verdades,
bobagens, canções e novos mundos,
só vou saindo pela porta de trás,
querendo chamar atenção pelos 
avessos. Eu sempre fui igual
e invertida.
Eu sempre fui igual
e pervertida,
só me falta a ginga social.
Vou saindo pelos fundos,
mas continuo a espreitar meus passos:

vou amanhã ao meu encontro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Aqueles dias foram
atos, foram portos,
aeroportos,
passagens, miragens
e eu era a feiticeira,
a cigana,
a rainha.
Eu jamais soube de
qualquer fluido,
de qualquer ruído,
de divindades
e freiras.
Eu era um porto de passagem
eu era hospedagem
eu era tudo o que
querias,
eu era tu
eu eras tu
todas
as eras
todas as ervas
eu em espanhol
eu em fluidez
eu de novo na terra
molhada,
eu devastada,
eu descoberta,
eu improvisada,
mundana
no submundo
eu uma deusa alada

atençào, senhores passageiros,
sem companheiros, sem aeroplanos,
estou voltando para terra firme.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

As pessoas boas estão morrendo. E eu as entendo: também sinto um tédio absurdo no mundo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não apenas retorno

Para quem é, com muito carinho.

Não esperava que aquela conversa de almoço – marcada com antecedência, esperada ansiosamente, tudo parecendo muito normal – ia fazê-la deslocar-se do mundo. Desde muito tempo escrevia, mas jamais pensara como naquela semana em fazer da escrita um projeto de vida. Jamais. E só ela sabia o quanto isso a perturbava. Claro. As pessoas estavam acostumadas a lê-la. Sabiam de seus ímpetos. Sabiam que mesmo no lugar mais improvável ela escrevia e jogava com as afeições. Mas não sabiam da ferida de escrever que se abria cada vez mais.

Tinha tudo para ser um encontro sociável e trivial, apesar da pauta previamente definida. Lugar cheio de pessoas conhecidas, acostumadas à sua formalidade habitual. Mais: à sua normalidade inquestionável. Muitas manifestações (contidas) de afeto, apresentações, conversas sobre o trabalho no hall de entrada. Um dia – e um almoço – cotidiano e trivial. Mas excedia. Elas não sabiam propriamente por onde começar, pois ambas estavam em uma fase perturbadora que queriam esconder. Mil disfarces, imaginava ela, podemos assumir agora. Talvez a melhor fase da carreira acadêmica. Nenhum motivo para inquietações. Ansiosa, ela transitava por entre as mesas pensando em quanto tempo ainda duraria aquele entre-tempo e imaginando se sua companheira de almoço também pensaria seriamente em burlar as banalidades.

Um dia singular não seria uma definição propriamente dita, seria até mesmo um sacrilégio expressar assim algo tão inexprimível. Ela gostava de pensar que sua amiga também estava pensando seriamente em assumir uma postura radical diante das coisas. Mas não era isso, era maior: ela – a amiga - estava sendo violentada pelo imperativo da escrita. Melhor ainda. Bons frutos viriam, apesar da dor. Laços se estreitando antes mesmo da primeira palavra sobre a inquietude.

O silêncio não era nada trivial. Enquanto se serviam aleatoriamente, ela previa o tom da conversa, os constrangimentos, as confissões. Não é fácil assumir a escrita. De repente esse verbo parecia verdadeiramente o mais apropriado. Assumir. Existem tantos tabus na escrita. Não se coloca no mundo; existe algo sempre por se dizer sem, no entanto, ter como. Havia uma tensão que não era negativa. Seriam discutidas vísceras e noites em claro, contenções e angústias. E isto obviamente envolvia descontroles.

O papo teve início. No princípio, ela olhava para os lados buscando olhares curiosos, mas, á medida em que se despia das formalidades, das superfícies, ia deixando de perceber tudo que as rodeava. Se para a amiga aquilo era um desabafo sem contornos, para ela era um processo espelhado: tudo que já estava aparentemente sanado retornava vertiginosamente sobre ela, como se, observando-se de fora, voltasse a interiorizar todo seu passado tortuoso em torno da escrita. Tudo voltava em fluxos desorganizados: a infância contida, a adolescência que implicou sérios processos de adequação, as leituras solitárias na hora do recreio na escola, o primeiro “romance”, já há muito tempo queimado em uma fogueirinha catártica, a fuga da entranha, a troca de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues por Agatha Christie, o curso de teatro abandonado dolorosamente, os roteiros de filmes adolescentes, a negação de tudo isso, os poemas apaixonados e, paradoxalmente, metrificados, a escrita severa e objetiva, a vida acadêmica, o retorno a Clarice, a “aparição” de Ana Cristina Cesar e de toda sua geração, a dor de voltar a escrever inquietações, a institucionalização do seu projeto literário, disfarçado de alheio, os títulos, os louros, a carreira se jogando sobre ela, as propostas, as respostas, as rosas, os foras, os novos projetos, e os poemas, e os contos, e os romances. Tudo ali, de repente, à sua frente, na figura tão familiar da colegaamigaconselheira de tantos anos, como se não houvesse um tempo linear em sua estranha sucessão de fatos. Se já há um mês pensava seriamente na possibilidade de jamais conseguir livrar-se dos imperativos da escrita, Naquele momento aquilo se tornava uma grande verdade incontornável. E era exatamente naquele momento. Já cogitara essa hipótese nos últimos dias, mas era uma coisa objetivada, que vinha de fora. Agora, à medida que aquele fora – dentro claramente disfarçado de exterioridades – ia se introjetando, bagunçava tudo e dava a conhecer uma verdade que, imaginada, não era tão dura.

Tentou fingir normalidade durante todo o tempo. Mas, se a amiga olhou-a nos olhos – e bem sabe que olhou – percebeu que algo se deslocava. Era um processo doloroso para ambas e elas bem sabiam disso. Havia uma coisa que se entranhava e elas só saberiam disso anos depois. Ela queria sinceramente que o horário objetivo do almoço se estendesse até a noitinha. Mas a formalidade as chamava. Precisavam sentar-se e ouvir meia dúzia de intelectuais de renome. Caminharam lentamente até a universidade, demorando-se a cada esquina na esperança de que aquilo tudo se prolongasse. Despediram-se no saguão, com promessas de um café no final da tarde, como se houvesse uma profanação naquela conversa confessional do almoço, seguiram para o mesmo lugar em diferentes companhias. Era realmente incompatível sentarem-se juntas diante de tanta superfície depois da profundidade de um encontro rápido como não deveria ser.

Ela não prestou atenção a nada. No intervalo, discretamente, andou conversando com dois ou três conhecidos que encontrava pelo caminho. Esqueceu-se propositalmente do horário marcado para a segunda mesa-redonda. Fumou um maço de cigarros à espera de que a amiga surgisse pela porta da frente da instituição para, despidas daquele visgo da academia, poderem chegar (ilusoriamente) a alguma solução. Em vão. Talvez impelidas por um desejo inconsciente e contraditório de voltar à normalidade superficial de suas vidas centradas, desencontraram-se. Tanto melhor: teriam tempo de digerir e pensar naquele desalojamento antes da próxima conversa. Teriam ímpetos de revolta, momentos epifânicos, ilusões e alucinações.

Ela chegou em casa exausta. Não tanto pelo dia cansativo, mas pela desordem que lhe causara a conversa. Resolveu deitar-se para dormir um pouco. Pensou debilmente em tudo e concluiu que aquilo era um grande divisor de águas na sua vida: nada lhe tiraria a vontade absurda de engolir o mundo. Colocou um DVD para aproveitar o tempo curto – sempre tinha a impressão de que a vida era muito pequena para fazer tudo que desse na telha – fazendo duas coisas ao mesmo tempo. E as duas coisas eram só uma e ia tomando forma uma verdade incontestável. O momento ante-sono reserva uma genialidade que só deixa resquícios: pensou coisas brilhantes de que jamais se lembrará. Sonhou pesadelos: de repente, resolvia impetuosamente comprar artigos de decoração. Saía do condomínio e entrava em uma loja em frente que jamais percebera, mas já conhecia previamente. Lugar escuro sem tique-taques de relógios. Prateleiras de madeira maciça em tom ocre, singular. Nunca se ativera a esses detalhes e, tampouco, a artigos de decoração. Procurava alguma coisa que não imaginava. Os artigos estavam cheios de poeira e, apesar de conhecê-los, estranhava suas formas. Andava por entre as prateleiras e observava discretamente a atendente que parecia arrumar alguma coisa. Sentiu que alguém passava o braço por sua cintura. Prendia-a, sem que ela pudesse se livrar. Não havia ninguém ali, só a sensação de que a prendiam com um braço só pela cintura. Precisava urgentemente sair dali e deixar o fantasma que a agarrava tão seguramente, não conseguia, lutava com o imaginário ser e aquilo era de uma realidade brutal. Desespero: não havia tique-taques de relógios. Ela estava presa no tempo dos fantasmas e não pertencia a ele. Saiu da loja em correria sem que pudesse se livrar do braço invisível. Quando acabará esta angústia? Tenho que me livrar! Tenho que me livrar! Escutou uma musiquinha desagradável: acordou com o celular na mão e em meio a vestígios de suores e lutas. Atendeu. Uma voz chamava-a à realidade. Abre a porta! Não conseguia falar. Abre a porta! Levantou-se cambaleante a abriu a porta. Ainda bem que chegava um indivíduo potencialmente capaz de tirar-me da vertigem. Era ele, era ele, era ele. Eu sou a redenção! Eu sou a saída! Eu sou capaz de te tirar da vertigem! Parece que ele dizia. E tirou: durante duas horas, ela voltaria à normalidade fingida a que estava acostumada. Era sempre bom sair da solitária. Mas esperava ansiosamente por estar sozinha novamente e poder escrever tudo aquilo. Inscrever, diria. Tornar aquilo uma memória.

Quando se viu sozinha novamente, não lhe ocorreu tomar da mão a sua vertigem e conviver com ela. Resolveu tornar-se uma pessoa acompanhada. Abriu um e-book, um livro esgotado na editora. Leu durante alguns minutos, quase horas. Viu toda a sua experiência do dia descrita de forma magistral em apenas duas frases. Parou. Era mesmo para acontecer. Estava tudo determinado previamente. Eles me perseguem. Escreveu uma longa carta para a amiga-do-almoço-desestabilizante. Contou seus sonhos e citou as passagens mais assustadoras do livro esgotado nas editoras. De alguma forma, sabia que a amiga também estava inquieta onde quer que fosse. Ela, que sempre criticou a aura mágica da escrita, tornava-se uma mística. Qual é a técnica? Não interessa. Cadê a entranha? Tornava-se visceral. Tudo tomava forma agora e ela via, não sem pavor, o seu destino petrificado nas páginas povoadas de letras e sons desorganizados. Aquela lucidez doía. Por quanto tempo agüentaria lidar com aquilo tudo? Resolveu ligar para a amiga-do-almoço-desestabilizante, mas desistiu ao olhar o relógio. Linearmente, não era hora de ligar para alguém: 04:57. A madrugada do ressurgimento. Feridas pipocavam no absurdo dos sentidos cada vez mais explícitos: desnudavam-se aleatoriamente.

Ela precisava organizar aquele microcaos particular e intransferível. Lembrava de pessoas declamando, de cavalos correndo em 20 de setembros, de conversas ao pé do ouvido e de mijadas. Fazia toda a trajetória da sua história com a amiga-do-almoço-desestabilizante. Eram anos se passando. E elas só se viam esporadicamente. Pretendia modificar todo aquele estado de coisas. Mandara vários e-mails para ela durante a madrugada. Contatos mais do que imediatos de alto grau de afinidades e compartilhamentos. Já não sabia mais o que era real ou ficcional. Verdadeiramente, já não sabia mais a necessidade dessa distinção, tampouco sua validade. Era inútil. Tudo era real, tão real que doía e parecia absurdo. Ela só saberia anos depois. E isso implicava uma outra objetivação. De outra ordem. Que pena.

Amanhecia e ela escrevia verborragicamente aquela carta adiada e inacabável. Não era hora de pensar em trivialidades. E ela não pensava. Não pretendia dormir, nem sob o efeito dos comprimidos. Precisava aproveitar aquela verdade nebulosa. Precisava deglutir toda a mudança a que estava condenada. Precisava tomar providências acerca da metafísica de toda aquela experiência. Às 06:48, pássaros cantando, ela desistiu categoricamente do plano cotidiano, embora não fosse – e não pudesse – se desvincular dele. Inversão de papéis. Jamais pensei que tomaria como regra e verdade indubitável a ficção esporádica e escondida; jamais pensei que não seria a rotina o real. Jamais pensei em tal estado modificado de coisas. Ela desistiu instantaneamente da convenção e dormiu profundamente sem sonhar e sabendo exatamente quem era o fantasma. Não voltaria ao mundo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Esta ausência em mim

Fosse apenas a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira, eu haveria ficado e tomado mais uma dose. As luzes dos holofotes projetadas sobre nós me deixavam tonta e aquela brincadeira ia se tornando a melhor parte de mim. Eu tinha de ir embora. Era um imperativo a me espreitar. Eu precisava deglutir sozinha - e inteira - toda aquela inquestionável noite sem fantasmas. Não era apenas um ponto de vista; aquela ilusão era uma verdade indubitável e sem limites. Era minha.
Ao abrir a porta, perguntei-me se era mesmo a minha verdade que eu queria encontrar naquela noite. Os fantasmas não viriam assombrar-me. Havia uma gama de destinos a decidir. O que seria feito das cartas amareladas há tanto tempo na gaveta? O que faria com as roupas amontoadas no armário sem que ninguém pudesse usá-las? Quem herdaria os livros espalhados pela sala? Quem abriria as cortinas diariamente para que tantas flores tomassem sol?

Eu deveria fazer planos para os próximos dias. Estava paralisada frente ao jorrar de mágoas e desconfortos, ao que me assaltava uma proibição tácita e sem sentidos à qual eu acatava plenamente. Era a fuga que me assustava. Era o sem-motivos que me atraía. Eu não perderia um único momento daquela fluidez em que ele me jogava inadvertidamente. Ele não tinha direitos; tampouco eu, culpas. Eu pressentia ser aquela noite a hora das escolhas, em que eu - entre o sim e o não - só poderia dizer sim.

Eu não precisaria de motivos, tampouco existiriam. Havia apenas uma via a seguir, via de mão única. De certa maneira, era uma grande oportunidade de abandonar os fantasmas e tomar o rumo de dois ou três mortais pouco admiráveis. A única vez em que eu não seria levada pela vontade dos poderosos. Sonhos não poderiam se insurgir, apenas uma realidade que doía de tão clara. Eu jamais fugiria da minha verdade.

Parada no meio da sala, sem saber por onde, por que ponto perdido começar a viver, eu observava, sem medo de me demorar, o abajur ao lado do sofá. Por tantos anos ele estivera ali e, naquele momento, era tão claro que seu lugar não era aquele, mas à esquerda da mesa de leituras. Os destinos jamais deixariam de conter aquele abajur não fosse a impressão de que todo aquele alvoroço era uma ilusão passageira. A verdade só começaria a partir daquele momento.

Já principiara a amanhecer quando percebi que continuava a sobreviver em um mundo de relógios e mentiras. Não queria as lembranças, mas aquela vaga impressão de que elas retornavam no meu corpo. Amanhecia. As lágrimas estabeleciam um novo contorno para meu rosto, sob a impressão de que ele chegaria a tempo de me tirar daquela tontura.

Eu continuava a olhar o abajur sem que pudesse trocá-lo de posição. Eu não queria mais a fúria de paixões rápidas ensejando permanência. Eu não poderia. Sob a égide da mudança, eu intentava livrar-me das amarras do passado. De repente, tempo e espaço já não eram categorias prontas a se manter em um momento muito próximo. Eu estava quase na beira, sem que pudesse, no entanto, me mexer.

Só mesmo aquela música poderia arrancar-me da regra. Somente aquela voz poderia fazer-me precipitar a fuga premente e cessar o desconforto da minha voz. Se eu resolvesse pela permanência, certamente ocuparia parte do meu destino a procurá-lo pelo mundo, mas só encontraria a mesma ilusão. No fluir de línguas daquela canção, eu só encontraria o esvair-se permanente da liquidez em que se fizera a sua voz. Encantada.

Por vezes, antes daquele momento, eu fizera da sua voz um hino e projetava-a em uma personalidade forte e coerente, talvez o recanto em que eu passaria as horas vazias da minha vida normal. Na caverna da sua voz. Somente ali eu poderia fugir de dias triviais. Eu inventava o seu olhar para mim. Havia muito tempo eu fugira das companhias desejáveis. Naquela época, eu já intuía o limiar em que viveria até que a morte viesse cessar minhas inquietações.

Era a primeira vertigem a me assaltar. Não haveria ilusão maior do que a separação tão clara entre a vida e a morte. Em outros tempos, eu não questionaria a existência de limites e fronteiras. Mas já era hora de alçar meu voo interminável. Era ainda tempo de confrontar-me com o espelho. Com a mentira do espelho. Era hora de despedir-me dos imaginários. Era hora de sair da ficção.

Os primeiros transeuntes já passavam pela calçada de meu prédio. Jamais imaginariam a mudança prestes a acontecer. jamais seriam vítimas dela. Eles não intuíam a simetria das calçadas. A minha verdade parecer-lhes-ia a grande mentira. Não importava. Eu jamais desejaria a compreensão. Seria este o meu legado: a incompreensão.

Não havia mais necessidade de estar o abajur ligado. No entanto, não me parecia possível apagar a única luz artificial a dar sentido ao devaneio prévio. Todo acontecimento deixa rastros irrevogáveis e a luz do abajur era um rastro imprescindível: último vestígio de lucidez.

A sua voz sobrevivia. Era o único elemento que ainda me prendia a uma estabilidade fictícia. A tranquilidade que eu jamais desejara. Eu permaneceria horas a seguir o fio de sua voz. Mas a escolha já estava feita antes de mim: não haveria mais horas. Perder a lembrança da sua voz era meu único lamento e, ao mesmo tempo, o tênue fio que me prendia à ficção do espelho.

Havia muito tempo, as lágrimas formaram em meu rosto sulcos profundos ao que, convencionalmente, chamam olheiras. Era estranha a capacidade das palavras de mascarar o real. Eu estava cansada da fuga que a linguagem impunha a qualquer fenômeno. Nunca pude dizer a minha dor. Talvez nisso a sua voz me realizasse plenamente, mas somente no que não dizia. Não havia formas, tampouco fórmulas. Passei um tempo presa por apenas um fio à ilusão cotidiana.

Eu lamentava o fato de que jamais lembraria do nosso encontro. Não era propriamente uma crise, mas uma luz intermitente a me cegar. Não há diferenças entre o céu e as estrelas, a não ser o que lhes é imposto, impregnado de humanidade. A vertigem era maior a cada esquecimento. O que mais me prendia à realidade era a sua grande ficção. A simetria das calçadas era estranhamente incompreensível: excedia toda classificação.

Havia algum tempo, eu parara com os remédios. Estranhamente, depois disso, eu me curara. Os pesadelos cessaram e, especialmente naquela noite, os fantasmas desapareceram. Era um bom sinal, talvez. Um sinal de que começava a me desprender das convenções. Os relógios já haviam parado. Não havia mais chão que me prendesse, nem lugar que me contivesse. Aquele apartamento era apenas o último invólucro. A última testemunha.

Sempre que estava prestes a encontrar o ponto de partida, sua voz vinha resgatar-me da viagem que eu tanto quisera. Obstáculo e porta do desconhecido. Era como se quisesse me salvar, como se algo fosse se perder se eu desvendasse o mistério de sua voz. Tão clara, tão segura. Talvez sua voz fosse um indesejável guia insistentemente dois passos à frente. A estender-me a mão.

A contradição ainda me assustava. Eu precisava de mais alguns instantes até estar pronta. Só existe contradição na convenção. Eu estava ainda impregnada de humanidades. Os transeuntes já olhavam, ao passar, para a luz incabível que saía pela janela, incompatível com um sol tão alto. Os pássaros já não cantavam. Fora-se o último resquício de suores noturnos.

As palavras estavam prestes a se dissolver. Não existiriam mais preces capazes de acalmar. Não restaria sequer um sentido preso aos vocábulos mofados. No último momento, só restaria a sua voz cansada e sem formas a me espreitar. Chegava a hora de indagar-me: como seria esta manhã não fosse aquela noite em que só havia a impressão de que todo aquele alvoroço era apenas uma ilusão passageira?

Haveria a minha era. Era a hora. Ilimitada, sem dúvidas, era aquela verdade uma ilusão. Sem fantasmas, toda aquela noite inquestionável, eu inteira, sozinha, deglutir precisava. A me espreitar, havia um imperativo. Ia embora a melhor parte de mim naquela brincadeira. Tonta deixavam-me, sobre nós, os holofotes de luzes projetadas. Mais uma dose teria tomado se houvesse ficado a te espreitar. Uma ilusão passageira era apenas aquele alvoroço. A impressão de que tudo fosse.

Foi então que eu me ausentei de mim.

Janaina Brum

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Manda-me notícias da sua última produção,
super-produção,
não,
um produto da melhor
indústria cinematográfica,
mesmo que dizer isso
seja uma permanente,
distante,
patente
contradição
guardada na minha estante
que instantaneamente se cobre
de valores
alheios.
Vem,
conta-me teus ideais,
teus projetos,
mananciais
de pura,
pura e pouco
cristalina criatividade.
Eu ando tendo lampejos,
sofrendo de agonias
e déficit de atenção.
Vou largar castelos
e gravar um filme de
mistério,
vou escrever poemas,
pilhas de poemas trash,
assistir a dramas e comédias
espanholas.
Eu tenho projetos...
preciso tanto saber de ti
que traço sozinha os teus
planos
e temo -
com tremores -
os teus desafetos.
Vamos rodar a última cena juntos,
primeira cena do Cinema Novo,
da Nouvelle Vague.
Vamos pegar um trem,
teremos um cenário.
É agora,
corta,
termina aqui o filme.
Vamos viver, meu bem,
sem Glauber, Pedro, François,
Claude ou Carlos
:

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ele abriu os braços
novamente
e, desta vez,
eu pude perceber,
embora receosa,
o gesto:
é a minha casa
sendo construída,
pensei.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pessoalíssima e nada pessoana

Gente, talvez eu me arrependa, mas vou publicar algo bem pessoal agora...

VIII



Não que existam mesmo coincidências, assim, nessa dimensão mágica. Mas eu gosto delas. Eu gosto de montar sua arquitetura diametralmente calculada.


Vem de antes de Ovelhas. Vem de antes do Caio. Vem de antes de mim. Era uma semente feminista. Era um trabalho que esboçava um começo de simpatia feminista pelas escritoras brasileiras. Mas escritoras não eram necessariamente feministas. Era uma confusão. Havia mulheres escrevendo por todos os lados. E eram poemas e contos e crônicas, e eram amores, amantes e tecidos. E uma. Sereia. Não se assemelhava a nada. Era única, de difícil acesso. Uma fotocópia. Um pedacinho de obra, um pedacinho de obra inacabada. Era o prenúncio de três anos de teses fundamentais sem conclusão alguma.


Três anos. Diluiu-se o feminismo, ficou uma posição indefinida, sempre desconfortável, que vai continuar assim. Foi-se a tese, defendeu-se como se fosse a vida, quase morreu-se de inanição. Ficou só ela – a escritora. Mas esqueceu-se cheia de pó nas prateleiras. Veio Caio. Pura ignorância, descobriu-se tardiamente uma amizade profunda entre Caio e Ana Cristina. Uma amiga me veio com o livro. Toma. Lê as cartas dele. Ele fala da Ana C. Veio um amigo e disse: lê Campos de Carvalho. Li. Veio outra amiga e disse: lê Mário Prata. Guardei na gaveta. Veio a depressão, outro amigo disse: vê Terça Insana. Vi. Mil vezes. Decidi fazer outra tese. Começaram as pesquisas, concomitantemente com a leitura das cartas. Ana Cristina que era amiga de Caio que era amigo de Grace que trabalhou com Mário Prata que era primo de Campos de Carvalho. E agora tem uma miscelânea na minha cabeça.


Não para por aí. Papai adorava Saramago. Conheceu-o – tudo documentado – através do Appel, que, para mim, não tinha nome, só sobrenome. Pois bem, papai foi viajar no céu sem asas no mesmo dia em que Saramago foi (embora nenhum dos dois acreditasse em céus). Segui eu lendo as cartas do Caio, cheias de borboletas amarelas, como meus poemas, cheias de tropeços na minha vida, na sua vida, não apareceu Saramago, mas apareceu Appel. Appel no luto. Eu entre destroços e recordações. Eu entre leituras e esquecimentos. Eu entre risadas frenéticas e choro convulsivo. Eu sozinha com saudades. Eu lendo e lendo tanta lembrança que era só minha (por herança). Eu lendo e escrevendo. Eu e as coincidências mais banais. Borboletas, perdas, sacadas, begônias, Saramago e meu pai tomando um drink no pub do céu. Preciso achar o Appel, se não o último, um dos últimos desejos.


Eu preferi a literatura. Fugi, criei mundos e não mundos sem dor. Doía também. Mas era uma dor só minha, não era mundana, tinha laivos de filosofias e auto-ajuda. Vamos dar risadas esporádicas e ficar sós quinze minutos ao dia. Medo – já disse – não tenho mais. O pai botou no bolso e remexe agora lá no pub do céu, junto com as coincidências, que eu coleciono e ele também.


Pai, faz o seguinte, fala com o Saramago aí, fala com o Caio, com a Ana C., que eu procuro o Appel, ok? Eu sei que ele precisa saber da reforma do teatro, eu sei que ele merece, ele participou do tombamento, foi peça fundamental, talvez a única. Eu sei. Eu vou tentar, fazer contatos. Conta para o Caio das borboletas amarelas. E conta para a Ana C. que eu reproduzo versos e versos dela e só percebo que não são meus tempos depois.


“Esvoaça, esvoaça”
Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

II



Ainda na introdução. Essa coisa de acusação não ficou nos anos 1990. É perpétua. São acusados os escritores: aqueles que publicam e aqueles que continuam no anonimato como eu. Somos acusados. Acusados por denunciar um estado íntimo que deve permanecer segredo pelo bem da moral e da ética decadentes, somos acusados por não sermos compreendidos facilmente, dada a objetividade do mundo e a confusão tão clara em que estamos metidos, somos acusados por sermos inadequados, patinhos feios inquietos e relutantes, raios que os partam que incomodam por dizerem o que não pode ser ouvido. Somos acusados. Ainda não se pode falar em punições no novo milênio, mas há uma pena de morte na espreita. “Tu escreves?” é a pergunta dos Novíssimos inquisidores, e desde a descoberta nos olham desconfiadamente, querendo adivinhar os segredos e as vidas promíscuas que supostamente vivemos. Querem me surpreender na minha anormalidade, mas isso eu reservo para poucos, só uns poucos escolhidos. Para os outros – os inquisidores –, nem uma migalha. Podem ler o blog, sim, mas se me verem no trabalho não verão a mesma pessoa. Bem-feito.


Meus textos são todos deserdados, bastardos, censurados de antemão. Mas eu os publico, eu os levo ao choque com os olhos acostumados a uma normalidade fictícia. Querem me ver ali? Autobiografia só esta. Eu sou realmente muito mais o que escrevo do que o que eu vivo. Mas eles, os inquisidores, não saberão disso até que eu prove, até que eu resolva dar-lhes o choque final.


A quem quer que vá ler o que escrevo, digo que sei que estão a procurar impressões sobre o livro de Caio. Não acharão. Ovelhas Negras é mero pretexto para eu pensar sobre mim e sobre o que escrevo. Tenho também as minhas ovelhas negras, meu rebanho é feito só delas. Não faço aqui plágio, não recebo grandes influências, só ganho um pretexto para escrever. Ovelhas Negras, ovelhas negras, mesmo que eu não seja católica, mesmo que eu não separe o mundo em rebanhos, mesmo que eu não tire os pecados do mundo e não tenha piedade de ninguém (mentira, às vezes eu tenho, embora me censure). Mesmo que não seja esse o meu parâmetro, resta-me um pouco de catequese ainda, resta-me um ar católico, mesmo que seja pura negação. É que se eu nego, tem um fundo. Vou falar em ovelhas negras porque Caio preferiu ovelhas a ervas daninhas e quem sou eu para tirar-lhe a autoridade? É só uma crença negada, um resquício de criação. Eu confesso que vou ainda a missas de sétimo dia.


Parece-me que devo falar em guardados, em textos nunca mostrados ou mostráveis. Pois bem, tenho me esforçado em publicar – marginalmente no blog, bem dito – textos mofados, cheio de dicotomias e chavões, textos que fazem parte do meu caminho, embora eu sempre tivesse querido começar de forma genial. Assim, publicando aquelas coisas que me dão arrepios de tão anti-estéticas, anti-literárias (ou talvez ante), eu me sinto purgada, perdoada, humilde (bem católica). Falando sério, é bom mostrar aos outros também os caminhos que trilhamos. Estou gostando do contraste entre a Janaina de sete anos atrás e a de agora. Vai ser um barato mesmo quando a diferença entre as Janainas for de trinta ou quarenta anos. Vamos brincar de ser o que se era.


Volta Lispector no Caio. Não estou tão longe. Estou tão perto. Estou chegando lá. Vou me depurar, vou me transformar, vou buscar maturidade, vou ser imatura e campeã. Vou salvar umas almas e perder tantas outras. Vamos lá, no caminhão que leva o rebanho para o meio do deserto. Vamos lá, sem prefácios e sem epígrafes:
Há um tempo atrás, resolvi escrever uns textos enquanto lia outros (não meus): uma coisa meio solta do tipo "o-que-der-na-telha". Pois bem, tenho várias páginas acumuladas. Hoje deu vontade de publicá-las aqui, já que ando sem criatividade para a poesia e com preguiça para as narrativas, cujos projetos são sempre longos e complexos e pedantes e impossíveis. vamos fazer esta experiência de mostrar meus "fluxos de (in)consciência sem pretensões literárias. Me contem o que acharam, ok? Beijos, Jana

Quando me deparei com Ana Cristina Cesar, pensei que perderia um pedantismo insistente como um vírus. Ainda não, não era hora. Melhorei, certamente. Deixei também de lado os maniqueísmos, as rimas e as métricas. Mas o resquício de clarices permaneceu. Até porque sempre me agradou ser clariceana. E ainda me agrada até certo ponto. Mas ando experimentando uma coisa mais jovem e é assim que chego às ovelhas. Encontrei, no livro de cartas, um caio que não era romano nem romântico: tinha a contradição toda nova dos anos setenta (que começaram em 68!) e isso me agrada tanto! Sempre agradou. E essa gente ralou diante de tanta repressão e se despiu do ranço acadêmico de que quero ainda me livrar. Essa gente escreveu palavrões que foram sempre cortados pela censura. Ficou ali um buraco, que preencho com muita facilidade. Essa gente ousou, essa gente se fodeu e eu aqui no bem-bom do século XXI. Quero aprender com eles. Vamos lá, sair do primeiro parágrafo da introdução.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gente, dica para quem gosta da obra do Caio Fernando Abreu:


http://salveacasadocaiofernandoabreu.blogspot.com/


Quem puder (e quiser), dê uma força para a campanha!


Beijocas da Jana

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pensei - irrefletida:
não gosto de imagens,
elas dizem tudo,
nada além.
Depois
uma conversa,
um trem, um viaduto,
um carinho
depois do depois
que sempre
"já é depois"
ele disse
talvez irrefletido como
eu:
"eu estou a fim de um vinho, 
para alimentar a sinceridade 
de dizer que imagens mentem
a todo instante... 
a lua é cheia de caos"
parei,
bem mística,
no meio do nada,
e passou,
de leve,
mas passou,
na minha frente,
uma borboleta amarela.

Para meu amigo Augusto Radde (com lindas palavras do mesmo!)

sábado, 7 de agosto de 2010

"Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra. E porque a primeira verdade está na terra e no corpo. Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo no fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que estou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma."
(Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Não há sol aqui...
mesmo se houvesse:
as palavras alheias caem
obscuras
sobre nós.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Vou te propor um pacto:
vamos causar impactos?
Jorram intentos:
puro vapor do nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ele me chamou e viu o
que
eu
não
vi
Eu achava
digo
acreditava
pi-a-men-te
que
aperto-no-peito
fosse somente
uma metáfora
e
sei
não
sei
se
isso
essa
pseudo-metá-
fora
do aper-
to no pei-
to
chama-se
sau
dade
ou
fan
tasma
CONFIA!

não
era:
e eu não

segunda-feira, 26 de julho de 2010


Não gosto de medos: desconfio deles. De repente, me dá uma vontade louca de voar: atenção, senhores passageiros. Dessa vez, sem aeroplanos.